A editora La Fabrique
Há uns tempos cruzei-me em França com este livro, editado e escrito pelo editor da La Fabrique, editora independente nascida em 1998. Eric Hazan conta aqui a história de um livro, desde que é pensado até que chega aos leitores, partindo do caso particular da sua editora. Mas mostra aqui um conhecimento muito alargado (chegou a trabalhar para um grande grupo editorial quando vendeu a editora do pai) da realidade do livro. França é um país muito diferente do nosso (sobretudo pela Lei do Preço Fixo, assunto que ele também pega aqui para explicar a morte das livrarias nos EUA e o mercado saudável em França) mas consegui identificar aqui muitos traços de uma edição verdadeiramente independente em Portugal, a rede de amigos que constroem os catálogos, as dificuldades em ver livro como objecto de lucro mas a aprendizagem que fazemos de como nos mantermos fora de água, a importância do livreiro. É um livro muito humano, muito atento a estas redes informais que transformam o trabalho editorial num trabalho cultural de peso. Mostra um editor com confiança no seu trabalho, mas sem menos confiança na rede que constrói o livro.
E depois foi para mim muito marcante, numa nota muito pessoal, perceber que foi também ele quem levou André Schiffrin a transformar em livro as ideias que trazia sobre mercado editorial em vários artigos no final dos anos 90, que foi na edição de La Fabrique que li Rancière, fascinada, quando o publicou no início dos 2000 e que foi também na sua edição que li os livros do Comité Invisível, por conselho dos amigos da RDA, livros totalmente transformadores da minha consciência política e da minha personalidade como ser social. Hazan disse que um dos seus grandes orgulhos era saber que muitos dos jovens revolucionários em França andavam com o Comité Invisível debaixo do braço.
Hazan morreu em 2024, com este livro deixa-nos uma aula de edição e sobretudo um grande legado de irmandade, estamos todos, editores independentes que levam o seu trabalho e os seus princípios nesta mesma base de transparência, a remar para o mesmo lado.
(Schiffrin está cá editado pela Letra Livre, o Comité Invisível pela Tigre de Papel e o Rancière pela Antígona, Orfeu e KKYM)



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