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Nada Cresce ao Luar, de Torborg Nedreaas

  • Foto do escritor: Rosa Azevedo
    Rosa Azevedo
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

No outro dia peguei neste livro que me tinha escapado totalmente, não fosse uma daquelas boas amigas que fazemos com os livros me ter dito que era obrigatório. E foi muito mais do que uma leitura. Neste livro, tudo é extraordinário, diferente, desconjuntado, impressionante e uma surpresa constante. 


Logo no início instala-se a estranheza. Um homem numa estação de comboios encontra uma mulher e persegue-a na rua porque ela lhe causa alguma curiosidade. Todo aquele longo início acontece naquele escuro, naquele revelar lento da identidade daquela mulher que ele começa a desbravar por camadas, pelo que vai lentamente vislumbrando. Acabam por ir para casa dele, após uma inversão daquele caminho de perseguição, porque ela precisa de contar uma história. E essa narrativa que ela vai contar é o corpo deste livro. Aos 38 anos, conta uma história que lhe aconteceu no fim da dolescência, uma história contada com a lente e com o exercício da memória, tão desfocado como sensorial.


Conta a história através dos traumas que foram transformando a sua narrativa ao longo desses 20 anos, que foi tomando várias diferentes formas, algumas até contraditórias, tudo em torno de uma obsessão pelo seu professor, Johannes, um homem manipulador, apaixonado, frio e presente em momentos contínuos. Tudo o que nós conhecemos é através da sua versão, marcada não só pelos 20 anos que passaram mas também pelo álcool que a acompanha toda aquela noite em que conta a história, que tem como pano de fundo os sons do exterior da casa do primeiro narrador, que se tornam personagens mais reais que o próprio anfitrião que apenas serve de interlocutor.


Toda a história está envolta nessa obsessão, essa dolorosa história de amor dos dois. Ela revela-se como alguém que tenta compreender a sua própria obsessão, transformando-a numa qualquer realidade que ainda não compreende muito bem. A narradora nunca entra em julgamento de si mesma em relação ao passado, nem tenta compreender o que lhe aconteceu. Aceita-a como parte de um pathos que a formou como ser pensante da sua própria vida interna e afirmação como mulher. Ao contar a história acompanha essa obsessão, passo a passo, dia a dia, mês a mês.


O livro é esta história, mas é também a história de todas as mulheres. Nada Cresce ao Luar, de Torborg Nedreaas, mulher de esquerda e convicta feminista, que se destaca na escrita norueguesa do pós-Guerra é um livro de 1947 e é, exactamente pelo contexto em que surge, um livro muito corajoso. 


Ao longo da história a narradora confronta-se com duas gravidezes indesejadas. E nunca vi ninguém descrever um aborto como a autora descreve aqui, e fá-lo com a destreza de quem quer denunciar a violência de essa opção estar apenas do lado das mulheres. O aborto acontece mais do que uma vez e a brutalidade das descrições são uma obrigatória reflexão que pensa como a miséria, a pobreza, aliadas a uma gravidez indesejada podem levar a mulher ao desespero e à desumanidade. 


Mas este livro é muito mais do que qualquer texto pode conter. Uma jovem de 17 anos que se vê confrontada com uma sociedade extremamente patriarcal, com uma mãe subjugada aos filhos e à família, com o ódio que sente por essa ordem mas sem a saber questionar a não ser quando se coloca totalmente fora do sistema. É através do ódio que sente pela mãe, pela sua miséria, pelo trabalho onde é explorada que ela vai compreendendo o mundo sem o conseguir descrever. Ela é uma sobrevivente do mundo e da sua própria obsessão. Assume cada uma das suas escolhas e faz o enterro dessa obsessão, resolvendo-a de forma não idealizada, sem a ajuda de ninguém, numa profunda solidão e isolamento. Há apenas uma excepção à solidão, um amigo que lhe toca numa igreja o Tocata e Fuga em Ré menor do Bach e que a faz ver a trasncendência, uma espécie de salvação que tem a forma da amizade. 


Autónoma e sozinha, é contra tudo uma mulher poderosa, mas que constrói esse poder por cima de um profundo e traumático sofrimento. É um livro profundamente literário, sem respostas dadas, sem narrativas óbvias, sem certo e errado. Só a vida daquela mulher totalmente exposta naquela casa desconhecida, único abrigo possível àquela profunda confissão.





 
 
 

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