Paula Modersohn-Becker
- Rosa Azevedo
- há 7 dias
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Terminei há pouco este extraordinário livro sobre a vida de Paula Becker. Uso aqui o seu nome de solteira, porque esta pintora, que nasceu em 1876 e morreu precocemente em 1907, tentou sempre que a sua identidade estivesse absolutamente ligada à sua autonomia.
Só conheço a sua vida a partir das palavras de Marie Darrieussecq. E Marie Darrieussecq conhece a sua vida através das cartas que trocou com o marido, Otto Modersohn, com algumas amigas e com um dos seus grandes amigos, Rainer Maria Rilke.
Estranhamente, Rilke terá sido um dos grandes incentivadores da sua prática artística e da sua identidade como mulher, mas foi também ele que, após a sua morte, optou por nunca a nomear nos poemas que lhe escreveu, não tendo trabalhado, aparentemente, de forma pública, para o reconhecimento da pintora. É dele, para ela, o belíssimo poema Requiem para uma Amiga (Requiem für eine Freundin).
Este livro anda por esses lugares de um encontro muito íntimo da pintora com a sua obra, com o quotidiano que lhe permitia continuar a pintar aquilo que via e vivenciava, numa cidade tão longe da sua Alemanha, em Paris, onde ela encontrava um lugar de conforto e solidão.
Aquilo que hoje valoriza a sua pintura foi, de alguma forma, usado contra ela. Os corpos nus, realistas, os olhares instigadores das suas personagens e os cenários pouco usuais, a ausência de um ideal de beleza. Toda esta estranheza espelhava, aos olhos dos outros, uma incapacidade e uma não realização do seu potencial.
Mas nada disto parecia incomodar Paula. Ela vivenciava nas suas cartas essa clara e transparente personalidade, a sua relação de total dedicação à sua obra e ao significado da sua obra, tendo para isso apenas (e já é tanto) de se afastar da família, do marido, até dos amigos, da sua cidade natal, dos seus lugares de conforto.
Fica um pouco por revelar que relação era esta de Paula Modersohn-Becker com a maternidade. Ficam os quadros, como este extraordinário quadro que dá capa ao livro de Marie Darrieussecq, na edição Folio. Uma pintura de Paula grávida de quatro ou cinco meses, num momento em que não estava grávida. Engravidou um ano depois. Morreu dezoito dias depois do nascimento da sua filha.












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