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Olga Gonçalves

  • Foto do escritor: Rosa Azevedo
    Rosa Azevedo
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Como acumuladora de livros de mulheres escritoras do século XX, fui juntando livros de Olga Gonçalves. Nunca lhes tendo dado muita atenção, o nome dela ia-me passando sempre pelos olhos quando falávamos de escritoras do pós-25 de Abril. Não apenas porque escreviam no pós-25 de Abril, mas também porque escreviam sobre esse país em ebulição, estranho, desconfortável, eufórico, mas sobretudo um país muito diferente, ao qual era preciso habituarmo-nos, onde era preciso aprender a viver. E por estranho que possa parecer, e é, não há muitos livros a dar-nos um retrato com estas dimensões, desse final dos anos 70 e anos 80. 

Há uns tempos, por uma partilha de André Teodósio a propósito da saída de um texto seu sobre a autora na publicação OFF OFF #2, voltei a pensar nela. Peguei nos livros novamente, reli-os e encontrei, lendo tudo junto, uma escritora extraordinariamente diferente, o que só por si já seria algo que jogava a seu favor. Depois de ler os livros, de procurar entrevistas e de tentar saber melhor quem ela tinha sido, encontrei uma escritora rara que tem como opção não usar a sua linguagem para falar dos assuntos que acha fundamental trazer para a literatura, mas prefere colocar-se na voz do outro: na voz de adolescentes que encontram no 25 de Abril uma possibilidade de uma revolução sexual: na voz dos emigrantes que, sabendo muito bem o que significa a liberdade, percebem que podem regressar ao seu país e reconstruir aqui de novo uma vida que lá fora tinha parecido tão fácil, face ao país da ditadura; na voz das prostitutas e das pessoas da rua.

Olga Gonçalves coloca-se na voz deles, não apenas naquilo que eles dizem, mas na forma como dizem. É um jogo de linguagem intenso e profundo. É uma afirmação de identidade a partir das conversas que estabelecemos com o outro.  Encontramos, aliás, nestes livros, uma profunda empatia com o outro, naquilo que ele tem de mais particular e individual, mas também um encontro absoluto com aquilo que a liberdade significou nas diferentes dimensões da vida e de cada um. Isto porque as personagens de Olga Gonçalves não são lineares, não têm apenas uma opinião, não têm só um ponto de vista. Elas próprias, todas elas, têm em si contradições, angústias, dúvidas e algumas posições que guardam com alguma vergonha e estranheza. Elas estão, através da linguagem, a encontrar uma chave para a compreensão do real. 

Tenho de deixar esta nota final: percebi que Olga Gonçalves foi, até mais ou menos aos anos 80, uma escritora profundamente respeitada pelos seus pares, pelo Estado, pelos leitores e pelo país. Hoje é uma escritora esquecida, desaparecida da edição, não tão desaparecida das prateleiras, porque felizmente ainda conseguimos encontrar a obra dela em muitos alfarrabistas. Isto deve-se ao facto, sobretudo, de terem sido numerosas as tiragens feitas destas mulheres naquela época de 1975, 1976, 1978 e, mais tarde, nos anos 80. 

Aquilo que estes livros me trouxeram, e que podem trazer a vocês, é uma recuperação de uma história difícil e complexa. Hoje em dia, ela tem sido questionada por muitos na tentativa de a diminuir ou de relativizar a sua importância. É a história de uma revolução que trouxe ao país uma profunda fenda, cuidada em comunhão, em diálogo e em comunidade, mas, ainda assim, uma fenda que foi preciso cuidar, depois de 45 anos de uma feroz ditadura que Olga Gonçalves aqui descreve tão bem, com o privilégio de acompanhar um país a reerguer-se nos anos que se lhe seguiram.





 
 
 

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